Solicito seja anotado o meu PEDIDO DE TRANCAMENTO DE MATRÍCULA solicitado à Secretaria do Curso de Letras, antes do início da última GREVE dos servidores (que apoio, integralmente), e consequentemente, minha escusa para o não-comparecimento a esta disciplina.
Grato,
Eduardo Banks
Matr. 2011.244.1007
sábado, 6 de junho de 2015
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Exercício 4 - Caroline Façanha
Hipertexto seria algo além do texto, isto é, uma janela que
te joga. Se pensarmos na cultura como um grande texto, como uma rede de
associações, cada associação então seria um hipertexto por si só. Isso é, se
tomarmos por associação semântica uma ligação de um bloco de texto com outros
que constroem o corpo da narrativa.
Diferente do sistema arbóreo, não haveria uma matriz para
ordenar todas as associações. Pelo contrário, pois na verdade hipertexto seria
uma forma não linear que agrega diversos conteúdos, não podendo haver uma
hierarquia intrínseca a todos esses conteúdos.
Na internet, o próprio link é uma associação semântica.
Quando observamos a enciclopédia ou o dicionário, fica evidente que o
hipertexto não surgiu com a criação da internet. Uma nota de rodapé também é um
hipertexto. Agora, se tomarmos como exemplo os artigos relacionados em revistas
ou em jornais. Em sites de notícia, isso fica claro, mas esse procedimento já
existia em jornais.
A intertextualidade que o hipertexto propõe acaba trazendo
uma potência ao texto, essa potência está presente na figura do leitor. Existe
três obras, ou formas de recepção. Existe a obra aberta, que oferece múltiplas
possibilidades de leitura. Existe a obra potencial, e nesse caso é o leitor
que, no ato de desembaralhar, escreve o poema.
Existe também as diversas formas de participação. A passiva,
ligada a uma contemplação, uma percepção e a própria imaginação. Há a
participação ativa: seria uma exploração, a manipulação do objeto artístico,
uma modificação da obra pelo expectador.
Assim, o potencial da obra está presente na figura do
leitor. Isso é, ela apenas se torna obra quando devolve algo, quando é
usufruída pelo leitor.
Se o livro exige um leitor, o texto na web exige a presença
ativa do usuário.
Um exemplo da interatividade está no site de Olia Lialina: http://www.artlebedev.ru/svalka/olialia/war/
O visitante pode navegar através da página. A cada escolha
que fazemos, ou seja, a cada frase que clicamos, somos direcionados para uma
nova frase – um hipertexto – que se relaciona com a anterior. E por assim,
vamos navegando no que parece ser um infinito de frases que contam uma história
de modo não linear. Cabe ao leitor explorar.
terça-feira, 31 de março de 2015
Exercício 4 - Bianca P.
A meu ver, um dos grandes trunfos proporcionados pelo uso do ciberespaço é a interatividade. Sendo também o ciberespaço um banco de de dados de memórias provindas de vários ambientes aleatórios e, deste ponto de vista, e graças a uma combinação complexa de tecnologias de informação e de comunicação, o elemento humano completa e adere ao mapa ciberespacial. A mente humana é o elemento imprescindível. Exemplo disto é o belo trabalho de Samir Mesquita, "Dois palitos" > http://www.samirmesquita.com.br/doispalitos.html < onde o artista carrega a plataforma utilizando-se de ilustrações animadas onde o espectador, no caso os internautas, interagem com o trabalho de maneiras diferentes uns dos outros; ao passar o mouse sobre a parte aberta da caixa de fósforos, um dos fósforos é virtualmente riscado e dele se abre uma mensagem diferente, corroborando assim o axioma onde diz que interatividade se define no momento em que a obra reflete de volta para nós as consequências de nossas ações.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Exercício 1
A nuvem
Após esconder o livro de
areia na Biblioteca Nacional, procurei manter uma certa distância dos livros
enquanto não tirasse essa experiência das minhas memórias. Porém, não fazia
ideia que eu estava vivenciando outro tipo de pesadelo quando constatei que
algo me perseguia. Era uma nuvem, que ilustrava o céu dos lugares por onde eu
passava, cuja presença única e singular me assombrou depois de um tempo. Isso
porque não entrava na classificação de uma nuvem comum, pois carregava dentro
de si todo o mundo em que eu me encontrava. Minha existência estava toda ali, e
eu me senti descartável, sem necessidade de lembrar, refletir, sonhar, sentir;
enfim, para que guardar algo dentro de mim se nesta nuvem eu acessava tudo e
mais um pouco do que fazia parte do meu ser?
O pior, como se isso já
não bastasse, era a incapacidade de afastá-la de mim. Automaticamente, eu estava
com ela a qualquer hora e em qualquer lugar, e o que no início poderia se
mostrar útil logo se mostrou um objeto de indignação. Isso porque não era
sempre que eu queria ter contato. Mas como destruir essa nuvem? Nuvens são
coisas eternas; são como livros depois de escritos. Queria não saber de sua
existência, mas agora basta esperar o tempo passar. Pode ser que depois de
viver na terra, tudo o que restar serão nuvens no horizonte.
segunda-feira, 23 de março de 2015
Exercício 2
O projeto GENTE tem como objetivo repensar o modelo da instituição Escola, tal como a
conhecemos. Para isso, busca implementar algumas mudanças nos métodos de ensino, onde
podemos perceber os princípios do sistema rizomático tratados por Deleuze.
Os princípios da conexão e heterogeneidade tratam de estabelecer relações ao se pensar em
algo. As inovações do projeto GENTE permitem que os alunos aprendam a buscar informações
por conta própria com o uso de tecnologias digitais. A ideia é que o interesse em aprender
parta do próprio aluno, e não de um professor que os obrigue a decorar determinada matéria.
O princípio da multiplicidade, dentro desse projeto, trata de permitir ao aluno percorrer
múltiplos caminhos para chegar ao conhecimento, ou seja, é um sistema aberto, livre, onde
cada um procura o seu ritmo de ensino e a melhor maneira de aprender determinado assunto.
A ruptura do a-significante é outro princípio observado nesse projeto, onde cada aluno
percorre o seu próprio caminho, e as conexões que são criadas por cada um para se chegar ao
fim, não destroem o todo, quer dizer, o conhecimento em si.
Por fim, os princípios da cartografia e decalcomania, onde Deleuze afirma que “um rizoma não
pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo” é claramente observado no
GENTE, pois o método aberto e livre de aprendizagem, que permite o prazer da descoberta, é
o que move toda essa iniciativa, fornecendo ao aluno as ferramentas para “fazer o mapa, não
o decalque”.
Grupo: Alexadre, Eduardo, Luis, Marcio, Willians
conhecemos. Para isso, busca implementar algumas mudanças nos métodos de ensino, onde
podemos perceber os princípios do sistema rizomático tratados por Deleuze.
Os princípios da conexão e heterogeneidade tratam de estabelecer relações ao se pensar em
algo. As inovações do projeto GENTE permitem que os alunos aprendam a buscar informações
por conta própria com o uso de tecnologias digitais. A ideia é que o interesse em aprender
parta do próprio aluno, e não de um professor que os obrigue a decorar determinada matéria.
O princípio da multiplicidade, dentro desse projeto, trata de permitir ao aluno percorrer
múltiplos caminhos para chegar ao conhecimento, ou seja, é um sistema aberto, livre, onde
cada um procura o seu ritmo de ensino e a melhor maneira de aprender determinado assunto.
A ruptura do a-significante é outro princípio observado nesse projeto, onde cada aluno
percorre o seu próprio caminho, e as conexões que são criadas por cada um para se chegar ao
fim, não destroem o todo, quer dizer, o conhecimento em si.
Por fim, os princípios da cartografia e decalcomania, onde Deleuze afirma que “um rizoma não
pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo” é claramente observado no
GENTE, pois o método aberto e livre de aprendizagem, que permite o prazer da descoberta, é
o que move toda essa iniciativa, fornecendo ao aluno as ferramentas para “fazer o mapa, não
o decalque”.
Grupo: Alexadre, Eduardo, Luis, Marcio, Willians
segunda-feira, 16 de março de 2015
Exercício 2 - Rizoma na escola
O projeto do Rizoma dentro da escola é um esforço e uma tentativa de aplicar formas diversas que estão indicadas no texto do Deleuze.
1. Uma ruptura com a hierarquia.
2. "Um Rizoma pode ter rompido, quebrado" para depois originar em outra coisa. Rizoma como "Devir".
3. Multiplicidade, pois nele há um espaço para os alunos de diversas idades, séries
4. Essas tentativas estão sendo aplicadas com uma geração recente. Há uma mínima organização programática e tradicional, já que esse projeto serve para trazer alternativas.
5. A partir de hoje podemos observar que jovens tem o contato com essa alternativa pedagógica custeada pelo Estado, ao contrário das demais iniciativas anteriores privadas e de alto custo.
6. O próprio vídeo de divulgação do projeto se utiliza de quadros da História de Arte como a obra de Mondrian, atentando para o interesse em relacionar diversos formatos.
1. Uma ruptura com a hierarquia.
2. "Um Rizoma pode ter rompido, quebrado" para depois originar em outra coisa. Rizoma como "Devir".
3. Multiplicidade, pois nele há um espaço para os alunos de diversas idades, séries
4. Essas tentativas estão sendo aplicadas com uma geração recente. Há uma mínima organização programática e tradicional, já que esse projeto serve para trazer alternativas.
5. A partir de hoje podemos observar que jovens tem o contato com essa alternativa pedagógica custeada pelo Estado, ao contrário das demais iniciativas anteriores privadas e de alto custo.
6. O próprio vídeo de divulgação do projeto se utiliza de quadros da História de Arte como a obra de Mondrian, atentando para o interesse em relacionar diversos formatos.
Exercicio 1
Páginas de areia
Parado ali diante da estante, eu pensava na possibilidade de manusear
novamente aquele livro. Não tinha em mente nenhum objetivo e talvez esta fosse
a razão de ainda permanecer assim, sem tocá-lo. Se eu tivesse uma direção,
talvez não tivesse que alimentar o desejo de abrir e lá começar uma busca sem
fim. Uma vez aberto, iria ficar imerso a procura de não sei bem o quê. Mas
acredito que me preparando, seria mais forte para interromper o processo.
A preparação se justifica por, felizmente, ter interrompido a uma busca
por conta de uma forte exaustão. Caso contrário, talvez eu adoecesse
gravemente.
Se não conhecesse o livro, jamais poderia conceber a ideia: um livro
infinito!
O conhecimento ali parece estar sempre se atualizando. Diversas
dissertações, milhões de contribuições, tudo no mesmo lugar!
Minha demora é justificável! Não se abre o livro aleatoriamente. Eu fiz
isso da vez.
Como é possível que se tenha que procurar tanto quando todos os textos
sobre um mesmo assunto estão ali?
Ainda não montei uma resposta concisa sobre esta pergunta mas ao que me
parece, nem tudo ali está bem fundamentado como parece ser.
Pra piorar tudo, fiquei sabendo por uma fonte confiável que o conteúdo
do livro é muito maior do que o apresentado no índice! Sem sombra de dúvidas é
infinito.
Ontem descobri o que queria procurar. Estava pronto. Eram onze horas da
noite e havia passadoi o dia todo me preparando. Fui então.
Comecei realizando três buscas simples. Deixei as páginas marcadas. Na
primeira, tive que ler sete textos relacionados com uma média de quatro páginas
cada. Na segunda, felizmente, só havia três artigos correspondentes com dez
páginas ao todo. Somente depois de toda esta leitura, já na terceira, percebi
que todo conteúdo relacionado à primeira e segunda página estava superado por
esta última! Fiquei com vontade de atirar o Livro de Areia longe!
Se não estivesse empenhado em adquirir mais conhecimento sobre a
pesquisa, já estaria dormindo. Os textos selecionados não serviam para atingir
meu objetivo, mas já dava para escrever um ensaio razoável. Mas não sosseguei.
Resolvi partir para uma quarta página. Tive que ser mais seletista com os
titulos no índice.
Para não cometer o mesmo equívoco, fui direto buscar a assinatura do
texto. O autor se chamava Jorge B. Através dele, descobri que o conteúdo
listado no índice não era suficiente para minha pesquisa e que somente um busca
mais profunda traria o que eu estava precisando.
Ele estava certo, das cinco páginas que ele indicou, a duas primeiras me
haviam deixado plenamente satisfeito! Era como se tivesse encontrado a coisa
mais importante da vida!
O conteúdo me transformou como pessoa! Já não era mais o mesmo!
Precisava ler tudo, mas meu corpo estava cansado. Com medo de que me acontecesse
o ocorrido anteriormente, fui dormir.
Acordei pela manhã tentando lembrar das coisas que havia aprendido mas
não consegui lembrar de nada. Só me lembrava da tamanha satisfação que experimentara
ao consultar o conteúdo profundo do livro.
Ao abrir o livro nas páginas marcadas, não mais estavam lá os textos que
me haviam dado um sentido novo! Nenhuma das cinco!
Com muito esforço lembrei
do nome Jorge B. Mas de nada adiantou pois tal pessoa simplesmente não existia.
Exercício 1 - Ampulheta
com quantas letras se faz uma palavra?
com quantas frases se faz uma página?
com quantos capítulos se faz um livro?
com quantos livros se faz uma biblioteca?
com quantas bibliotecas se faz uma cabeça?
com quantas cabeças se tem razão?
e com que razão se perde a cabeça?
a linha consta de um número infinito de pontos
o plano, de um número infinito de linhas
o volume de um número infinito de planos
o hipervolume, de um número infinito de volumes
com quantos grãos se faz um punhado de areia?
se o livro é de areia e as palavras são grãos,
o que são as letras?
se eu pego um grão com a mão e o devolvo à areia
como faço para reencontrá-lo?
eu nunca mais vou vê-lo
Grão de voz - Exercício 1
Abro o livro na página 14, que poderia
muito bem se tratar da página 345 ou mesmo o décimo versículo de um capítulo
extra. Uma página em branco, todo seu mundo de possibilidades me recepciona de
braços abertos. Sinto-me acolhido em sua imensidão branca e suas promessas
infinitas. Não sei bem como a mão se fechou sobre a caneta, porém sinto a força
de meus dedos ao marcar o papel com tinta negra.
Observo a mensagem que deixei:
“Esse é meu livro.”
Suspiro, exasperado. Imerso em devaneios.
Estou só.
Fecho o livro com um baque e levanto-me
subitamente da cadeira a que estive aprisionado.
Não há como saber se passaram anos ou
meros segundos, mas volto-me ao negro livro, tão imóvel e sereno em sua
plenitude movediça. Parece-me inofensivo.
É com cautela que me aproximo do objeto
e o examino com dedos trêmulos. E é com ainda mais cautela que abro suas
páginas aleatoriamente. Para meu choque, a frase que escrevi há alguns
instantes entra em meu campo de visão.
É com maior choque que observo uma
segunda frase embaixo de minhas palavras:
“Esse livro não pertence a você.”
O dono das palavras hostis prefere não
se revelar.
Por impulso tento folhear, avançar mais
algumas páginas. Escapar da insinuação latente. Outra página em branco e com
ela, um imediato fluxo de alívio.
“Esse livro jamais pertenceu a você.”
Permito que o misterioso livro me
entretenha pelos próximos momentos.
Surpreendo-me ao perceber que não tenho
raiva. A nova voz deveria me provocar assombro – e assim o faz –, mas tal
sensação não é de absoluto desagradável. Um fio de adrenalina se embrenha por
minhas engrenagens e sou tentado a me entregar a sua correnteza.
“Esse
é meu livro.”
Uma crescente onda de inquietante euforia
ameaça me tragar quando observo minhas palavras no papel.
Anseio por uma resposta e pela dose de
adrenalina que se faz presente. Avanço um punhado de páginas, afoito por outra
frase.
Mas não há nada ali. Nenhuma palavra,
Só há o branco, Sempre só existiu o branco.
Não desisto. Viro as páginas com tamanho
ímpeto que o papel ameaça rasgar-se e desfazer-se diante meus olhos impacientes.
Suspiro aliviado ao notar palavras ganhando
vida sobre a superfície branca que aprendi a odiar.
“Você pertence a esse livro.”
domingo, 15 de março de 2015
O livro de vidro - Exercício 1
Ouvira falar sobre um livro de muitas páginas. Mais do que todos os outros, tal livro trazia consigo, entre as folhas, a mágica de transformar tudo em passado. Virada uma página, pronto: ela não existia mais. Lembrou-se de ter rido da história e de ter zombado daquele velho que acreditou num caixeiro viajante que queria passar à diante uma mercadoria encalhada. O mundo estava povoado de pessoas espertas e aquele homem era só mais um, pensou. E pobre do velho que, acreditando em tal disparate, empatou a aposentadoria do mês naquele exemplar surrado e sem utilidade. Sem entender porque, começou a sentir pena daquele homem. Sacudiu a cabeça num sinal de autorreprovação, como quem se perguntava por que estava pensando naquilo quando, de repente, deu-se conta de que estava parada no meio da calçada tumultuada do centro, em frente a uma vitrine, que refletia incessantemente o movimento confuso do meio-dia. Involuntariamente, virou-se para ela.
Transeuntes apressados xingavam sua falta de movimento atrapalhando a passagem; carros soltavam fumaça de seus escapamentos e buzinas nervosas, numa espécie de sinfonia desafinada, ecoavam pela avenida. Permanecia inerte como se tivessem pregado seus pés no cimento dos blocos que constituíam o passeio público. Não se importou no começo. Continuava com os olhos vidrados no movimento da cidade através da vitrine. Mas, à medida que piscava os olhos, a paisagem não era mais a mesma: a mulher de vestido azul dera lugar à de terninho marrom, o carro grande vermelho era agora pequeno e cinza, o sinal passou do verde ao vermelho num átimo de segundo, blocos de pessoas atravessavam de um lado para o outro no zebrado do chão. Poderia piscar mais mil vezes. Cinco mil vezes. Só ela era a mesma ali, refletida no vidro, abraçada por braços invisíveis que não a deixavam sair. As imagens continuavam em movimento, agora cansando seus olhos. Começava a se importar. Com um movimento impensado segurou as pálpebras com força desejando que essa atitude congelasse a paisagem atrás dela, mas conseguiu apenas lacrimejar com a poeira fina da cidade e reparar que um homem, sentado do outro lado da calçada, olhava atento para ela e ofereceu-lhe um sorriso zombeteiro antes de fechar o grosso livro que trazia nas mãos. Piscou. Um empurrão seguido de um resmungo tirou-lhe o equilíbrio, que recuperou dando um passo à frente.
segunda-feira, 9 de março de 2015
A Biblioteca de Areia Desdobrada - Exercício 1
Dobrou e dobrou a avenida del Libertador, no bairro
de Belgrano. Levava nas mãos uma caixa pesada
e média, no qual fazia um pequeno esforço, enquanto um pingo escorria de sua
testa que franzia para interromper as gotas. Era clara a dedicação em carregar o
que se tratava de uma parte da coleção com mais três novos volumes da Historia
Universal da Infâmia desdobrada e engordada de Jorge Luis Borges. Volumes
encontrados em meio a textos raros da Biblioteca Nacional Argentina e lá
deixados em alguma gaveta, mas outras versões diziam que foram encontradas em fac-símile
prestes a serem vendidos em um leilão de livros contrabandeados nos Estados
Unidos e roubados da Biblioteca de Areia, no qual Borges manteve até seu
falecimento. Sim, tudo saiu de um livro de areia para virar há maior biblioteca
já vista ou não vista pelo homem, já que era uma biblioteca sem principio ou
fim. Tudo aquilo se expandiu tanto que se pensarmos agora no conto de Julio Cortázar,
outro que frequentou a biblioteca em meados da década de 70, e dito até pelos frequentadores
mais assíduos que chegou a pegar o próprio Livro de Areia que se perdeu em meio
à imensidão de livros que foram reescritos e atualizados constantemente e que
sem fim se desdobraram. Partiu, então a ideia do oceano de argamassa dos
livros, ideia que Cortázar levou em um de seus contos.
A Biblioteca de Areia, essa grande
rede inflamada de conhecimento e paixão que se ouviu falar nos quatro cantos do
mundo. Estudiosos e eruditos vindos de todas as partes vinham e diziam que se
tratava de algo com uma finalidade sem fim, pois era preciso sempre estar
atualizando a biblioteca para ela estar viva, ao mesmo tempo em que todo o
conhecimento já escrito do homem se encontrava ali ou pelo menos aquele que ainda
não se havia perdido entre as inúmeras reorganizações e mudanças transitórias
do lugar, assim como das pessoas que ali deixavam livros e mudavam para deixar
os livros antigos em busca de outros. Diziam que os livros que se perdiam caíam
em um buraco e que só escavando com muita paciência um individuo com tamanha persistência
e paixão era capaz de encontrar. Era uma rede infinita de labirintos e estantes,
alguns foram deturpados pelos homens, pois começava a entrar ali livros de tudo
quanto é tipo, inclusive muito ruins, mas ainda com muito legado e espaço para
o pensamento. Pois, a Biblioteca de
Areia se escreve, se conta uma história e prossegue sem princípio sem fim.
O Branco do Livro - Exercício 1
Nunca gostei de areia. Sempre me
lembrou algo que ia sempre comigo. Seja em um prédio em construção ou em uma
praia, nunca cheguei em casa sem trazer comigo, por entre os dedos dos pés ou
por entre os cachos do cabelo, uma quantidade significativa de areia. Tenho a
impressão que ela se multiplica: de meus pés limpos vão para a cama; da cama
para o chão; do chão pra vassoura; da vassoura de volta ao chão que devolve
para meu pé que devolve para a cama. Toda areia é labiríntica, por isso, ir à
praia sempre me soa como destruir a praia, como se, caso voltasse lá muitas
vezes, aos poucos, traria a praia comigo e moraria a beira-mar.
Não acredito que a areia se molhe.
Acho que a areia seca a água. Tampouco acredito
que a areia se dissolva, ela se molda no exato formato que quer, mesmo que até
hoje nunca tenha querido formar grandes coisas e permaneça tal como sempre foi.
A areia opta por não se metamorfosear. Ela aprendeu a metamorfose e decidiu
abrir mão da tarefa. As dunas estragam a areia. As dunas não existem. Pensar a
areia no coletivo é violar os direitos básicos da areia. A areia, mesmo que
junta, nunca é praia, nunca é duna, nunca é deserto: praia, duna e deserto
somos nós.
Achei um livro sujo de areia. Ou
limpo das pessoas. Levei-o para casa como estava e fui deixando areia pelo
caminho até em casa, incluindo a própria casa que é caminho também. Mais areia
no chão vassoura cama e pé. O livro é comum, normal, capa, página e letra. O
problema sou eu. Insisto em ver no livro para além dele próprio, imagino que
ele contém alguma coisa para algum lugar. Leio o que ele tem e invento o que
ele não tem. Perco o interesse pelo livro, mas, culpado, sinto que não posso
perder.
Não acho o livro monstruoso,
tampouco interessante. O livro hoje é feito de vazio, de vazio que muda, nem a areia
lhe salva. A areia tem história, tem memória, e toda história e toda a memória
estragam o livro. O livro só não existe. É um esforço vê-lo assim.
Aos poucos, então, abro meus
olhos (ainda não tinha atentado para o fato de que eles estavam fechados) e
começo a desvanecer o que não é livro. Apago a televisão, a estante, o sofá, os
outros livros, a mesa, o tapete e rumo para o livro – agora o único – e praquilo
que ele nunca teve: a solidão. Apago as paredes, o teto e o piso e agora ele
paira flutuando no branco do nada. Um lugar imprevisto, mas que mantém o livro
ali, somente pelo meu olhar.
Fecho novamente os olhos e
imagino o livro sumindo. Imaginando suas páginas transparentes, suas cores
negativas e suas moléculas se desfazendo entre o branco do nada. Abro os olhos
e lá está ele, flutuante com capa e tudo. Ainda há letras.
Pisco uma vez. Duas. O livro.
Sumo eu.
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