domingo, 15 de março de 2015

O livro de vidro - Exercício 1



Ouvira falar sobre um livro de muitas páginas. Mais do que todos os outros, tal livro trazia consigo, entre as folhas, a mágica de transformar tudo em passado. Virada uma página, pronto: ela não existia mais. Lembrou-se de ter rido da história e de ter zombado daquele velho que acreditou num caixeiro viajante que queria passar à diante uma mercadoria encalhada. O mundo estava povoado de pessoas espertas e aquele homem era só mais um, pensou. E pobre do velho que, acreditando em tal disparate, empatou a aposentadoria do mês naquele exemplar surrado e sem utilidade. Sem entender porque, começou a sentir pena daquele homem. Sacudiu a cabeça num sinal de autorreprovação, como quem se perguntava por que estava pensando naquilo quando, de repente, deu-se conta de que estava parada no meio da calçada tumultuada do centro, em frente a uma vitrine, que refletia incessantemente o movimento confuso do meio-dia. Involuntariamente, virou-se para ela. 

Transeuntes apressados xingavam sua falta de movimento atrapalhando a passagem; carros soltavam fumaça de seus escapamentos e buzinas nervosas, numa espécie de sinfonia desafinada, ecoavam pela avenida. Permanecia inerte como se tivessem pregado seus pés no cimento dos blocos que constituíam o passeio público. Não se importou no começo. Continuava com os olhos vidrados no movimento da cidade através da vitrine. Mas, à medida que piscava os olhos, a paisagem não era mais a mesma: a mulher de vestido azul dera lugar à de terninho marrom, o carro grande vermelho era agora pequeno e cinza, o sinal passou do verde ao vermelho num átimo de segundo, blocos de pessoas atravessavam de um lado para o outro no zebrado do chão. Poderia piscar mais mil vezes. Cinco mil vezes. Só ela era a mesma ali, refletida no vidro, abraçada por braços invisíveis que não a deixavam sair. As imagens continuavam em movimento, agora cansando seus olhos. Começava a se importar. Com um movimento impensado segurou as pálpebras com força desejando que essa atitude congelasse a paisagem atrás dela, mas conseguiu apenas lacrimejar com a poeira fina da cidade e reparar que um homem, sentado do outro lado da calçada, olhava atento para ela e ofereceu-lhe um sorriso zombeteiro antes de fechar o grosso livro que trazia nas mãos. Piscou. Um empurrão seguido de um resmungo tirou-lhe o equilíbrio, que recuperou dando um passo à frente.       

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