A nuvem
Após esconder o livro de
areia na Biblioteca Nacional, procurei manter uma certa distância dos livros
enquanto não tirasse essa experiência das minhas memórias. Porém, não fazia
ideia que eu estava vivenciando outro tipo de pesadelo quando constatei que
algo me perseguia. Era uma nuvem, que ilustrava o céu dos lugares por onde eu
passava, cuja presença única e singular me assombrou depois de um tempo. Isso
porque não entrava na classificação de uma nuvem comum, pois carregava dentro
de si todo o mundo em que eu me encontrava. Minha existência estava toda ali, e
eu me senti descartável, sem necessidade de lembrar, refletir, sonhar, sentir;
enfim, para que guardar algo dentro de mim se nesta nuvem eu acessava tudo e
mais um pouco do que fazia parte do meu ser?
O pior, como se isso já
não bastasse, era a incapacidade de afastá-la de mim. Automaticamente, eu estava
com ela a qualquer hora e em qualquer lugar, e o que no início poderia se
mostrar útil logo se mostrou um objeto de indignação. Isso porque não era
sempre que eu queria ter contato. Mas como destruir essa nuvem? Nuvens são
coisas eternas; são como livros depois de escritos. Queria não saber de sua
existência, mas agora basta esperar o tempo passar. Pode ser que depois de
viver na terra, tudo o que restar serão nuvens no horizonte.
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