Dobrou e dobrou a avenida del Libertador, no bairro
de Belgrano. Levava nas mãos uma caixa pesada
e média, no qual fazia um pequeno esforço, enquanto um pingo escorria de sua
testa que franzia para interromper as gotas. Era clara a dedicação em carregar o
que se tratava de uma parte da coleção com mais três novos volumes da Historia
Universal da Infâmia desdobrada e engordada de Jorge Luis Borges. Volumes
encontrados em meio a textos raros da Biblioteca Nacional Argentina e lá
deixados em alguma gaveta, mas outras versões diziam que foram encontradas em fac-símile
prestes a serem vendidos em um leilão de livros contrabandeados nos Estados
Unidos e roubados da Biblioteca de Areia, no qual Borges manteve até seu
falecimento. Sim, tudo saiu de um livro de areia para virar há maior biblioteca
já vista ou não vista pelo homem, já que era uma biblioteca sem principio ou
fim. Tudo aquilo se expandiu tanto que se pensarmos agora no conto de Julio Cortázar,
outro que frequentou a biblioteca em meados da década de 70, e dito até pelos frequentadores
mais assíduos que chegou a pegar o próprio Livro de Areia que se perdeu em meio
à imensidão de livros que foram reescritos e atualizados constantemente e que
sem fim se desdobraram. Partiu, então a ideia do oceano de argamassa dos
livros, ideia que Cortázar levou em um de seus contos.
A Biblioteca de Areia, essa grande
rede inflamada de conhecimento e paixão que se ouviu falar nos quatro cantos do
mundo. Estudiosos e eruditos vindos de todas as partes vinham e diziam que se
tratava de algo com uma finalidade sem fim, pois era preciso sempre estar
atualizando a biblioteca para ela estar viva, ao mesmo tempo em que todo o
conhecimento já escrito do homem se encontrava ali ou pelo menos aquele que ainda
não se havia perdido entre as inúmeras reorganizações e mudanças transitórias
do lugar, assim como das pessoas que ali deixavam livros e mudavam para deixar
os livros antigos em busca de outros. Diziam que os livros que se perdiam caíam
em um buraco e que só escavando com muita paciência um individuo com tamanha persistência
e paixão era capaz de encontrar. Era uma rede infinita de labirintos e estantes,
alguns foram deturpados pelos homens, pois começava a entrar ali livros de tudo
quanto é tipo, inclusive muito ruins, mas ainda com muito legado e espaço para
o pensamento. Pois, a Biblioteca de
Areia se escreve, se conta uma história e prossegue sem princípio sem fim.
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