segunda-feira, 9 de março de 2015

A Biblioteca de Areia Desdobrada - Exercício 1



                                      

 Dobrou e dobrou a avenida del Libertador, no bairro de Belgrano.  Levava nas mãos uma caixa pesada e média, no qual fazia um pequeno esforço, enquanto um pingo escorria de sua testa que franzia para interromper as gotas. Era clara a dedicação em carregar o que se tratava de uma parte da coleção com mais três novos volumes da Historia Universal da Infâmia desdobrada e engordada de Jorge Luis Borges. Volumes encontrados em meio a textos raros da Biblioteca Nacional Argentina e lá deixados em alguma gaveta, mas outras versões diziam que foram encontradas em fac-símile prestes a serem vendidos em um leilão de livros contrabandeados nos Estados Unidos e roubados da Biblioteca de Areia, no qual Borges manteve até seu falecimento. Sim, tudo saiu de um livro de areia para virar há maior biblioteca já vista ou não vista pelo homem, já que era uma biblioteca sem principio ou fim. Tudo aquilo se expandiu tanto que se pensarmos agora no conto de Julio Cortázar, outro que frequentou a biblioteca em meados da década de 70, e dito até pelos frequentadores mais assíduos que chegou a pegar o próprio Livro de Areia que se perdeu em meio à imensidão de livros que foram reescritos e atualizados constantemente e que sem fim se desdobraram. Partiu, então a ideia do oceano de argamassa dos livros, ideia que Cortázar levou em um de seus contos.

A Biblioteca de Areia, essa grande rede inflamada de conhecimento e paixão que se ouviu falar nos quatro cantos do mundo. Estudiosos e eruditos vindos de todas as partes vinham e diziam que se tratava de algo com uma finalidade sem fim, pois era preciso sempre estar atualizando a biblioteca para ela estar viva, ao mesmo tempo em que todo o conhecimento já escrito do homem se encontrava ali ou pelo menos aquele que ainda não se havia perdido entre as inúmeras reorganizações e mudanças transitórias do lugar, assim como das pessoas que ali deixavam livros e mudavam para deixar os livros antigos em busca de outros. Diziam que os livros que se perdiam caíam em um buraco e que só escavando com muita paciência um individuo com tamanha persistência e paixão era capaz de encontrar. Era uma rede infinita de labirintos e estantes, alguns foram deturpados pelos homens, pois começava a entrar ali livros de tudo quanto é tipo, inclusive muito ruins, mas ainda com muito legado e espaço para o pensamento.  Pois, a Biblioteca de Areia se escreve, se conta uma história e prossegue sem princípio sem fim.

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