Nunca gostei de areia. Sempre me
lembrou algo que ia sempre comigo. Seja em um prédio em construção ou em uma
praia, nunca cheguei em casa sem trazer comigo, por entre os dedos dos pés ou
por entre os cachos do cabelo, uma quantidade significativa de areia. Tenho a
impressão que ela se multiplica: de meus pés limpos vão para a cama; da cama
para o chão; do chão pra vassoura; da vassoura de volta ao chão que devolve
para meu pé que devolve para a cama. Toda areia é labiríntica, por isso, ir à
praia sempre me soa como destruir a praia, como se, caso voltasse lá muitas
vezes, aos poucos, traria a praia comigo e moraria a beira-mar.
Não acredito que a areia se molhe.
Acho que a areia seca a água. Tampouco acredito
que a areia se dissolva, ela se molda no exato formato que quer, mesmo que até
hoje nunca tenha querido formar grandes coisas e permaneça tal como sempre foi.
A areia opta por não se metamorfosear. Ela aprendeu a metamorfose e decidiu
abrir mão da tarefa. As dunas estragam a areia. As dunas não existem. Pensar a
areia no coletivo é violar os direitos básicos da areia. A areia, mesmo que
junta, nunca é praia, nunca é duna, nunca é deserto: praia, duna e deserto
somos nós.
Achei um livro sujo de areia. Ou
limpo das pessoas. Levei-o para casa como estava e fui deixando areia pelo
caminho até em casa, incluindo a própria casa que é caminho também. Mais areia
no chão vassoura cama e pé. O livro é comum, normal, capa, página e letra. O
problema sou eu. Insisto em ver no livro para além dele próprio, imagino que
ele contém alguma coisa para algum lugar. Leio o que ele tem e invento o que
ele não tem. Perco o interesse pelo livro, mas, culpado, sinto que não posso
perder.
Não acho o livro monstruoso,
tampouco interessante. O livro hoje é feito de vazio, de vazio que muda, nem a areia
lhe salva. A areia tem história, tem memória, e toda história e toda a memória
estragam o livro. O livro só não existe. É um esforço vê-lo assim.
Aos poucos, então, abro meus
olhos (ainda não tinha atentado para o fato de que eles estavam fechados) e
começo a desvanecer o que não é livro. Apago a televisão, a estante, o sofá, os
outros livros, a mesa, o tapete e rumo para o livro – agora o único – e praquilo
que ele nunca teve: a solidão. Apago as paredes, o teto e o piso e agora ele
paira flutuando no branco do nada. Um lugar imprevisto, mas que mantém o livro
ali, somente pelo meu olhar.
Fecho novamente os olhos e
imagino o livro sumindo. Imaginando suas páginas transparentes, suas cores
negativas e suas moléculas se desfazendo entre o branco do nada. Abro os olhos
e lá está ele, flutuante com capa e tudo. Ainda há letras.
Pisco uma vez. Duas. O livro.
Sumo eu.
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