segunda-feira, 16 de março de 2015

Grão de voz - Exercício 1

Abro o livro na página 14, que poderia muito bem se tratar da página 345 ou mesmo o décimo versículo de um capítulo extra. Uma página em branco, todo seu mundo de possibilidades me recepciona de braços abertos. Sinto-me acolhido em sua imensidão branca e suas promessas infinitas. Não sei bem como a mão se fechou sobre a caneta, porém sinto a força de meus dedos ao marcar o papel com tinta negra.

Observo a mensagem que deixei:

“Esse é meu livro.”

Suspiro, exasperado.  Imerso em devaneios.

Estou só.

Fecho o livro com um baque e levanto-me subitamente da cadeira a que estive aprisionado.

Não há como saber se passaram anos ou meros segundos, mas volto-me ao negro livro, tão imóvel e sereno em sua plenitude movediça. Parece-me inofensivo.

É com cautela que me aproximo do objeto e o examino com dedos trêmulos. E é com ainda mais cautela que abro suas páginas aleatoriamente. Para meu choque, a frase que escrevi há alguns instantes entra em meu campo de visão.

É com maior choque que observo uma segunda frase embaixo de minhas palavras:

“Esse livro não pertence a você.”

O dono das palavras hostis prefere não se revelar.

Por impulso tento folhear, avançar mais algumas páginas. Escapar da insinuação latente. Outra página em branco e com ela, um imediato fluxo de alívio.

“Esse livro jamais pertenceu a você.”

Permito que o misterioso livro me entretenha pelos próximos momentos.

Surpreendo-me ao perceber que não tenho raiva. A nova voz deveria me provocar assombro – e assim o faz –, mas tal sensação não é de absoluto desagradável. Um fio de adrenalina se embrenha por minhas engrenagens e sou tentado a me entregar a sua correnteza.

 “Esse é meu livro.”

Uma crescente onda de inquietante euforia ameaça me tragar quando observo minhas palavras no papel.

Anseio por uma resposta e pela dose de adrenalina que se faz presente. Avanço um punhado de páginas, afoito por outra frase.

Mas não há nada ali. Nenhuma palavra, Só há o branco, Sempre só existiu o branco.

Não desisto. Viro as páginas com tamanho ímpeto que o papel ameaça rasgar-se e desfazer-se diante meus olhos impacientes.

Suspiro aliviado ao notar palavras ganhando vida sobre a superfície branca que aprendi a odiar.


“Você pertence a esse livro.”

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