Abro o livro na página 14, que poderia
muito bem se tratar da página 345 ou mesmo o décimo versículo de um capítulo
extra. Uma página em branco, todo seu mundo de possibilidades me recepciona de
braços abertos. Sinto-me acolhido em sua imensidão branca e suas promessas
infinitas. Não sei bem como a mão se fechou sobre a caneta, porém sinto a força
de meus dedos ao marcar o papel com tinta negra.
Observo a mensagem que deixei:
“Esse é meu livro.”
Suspiro, exasperado. Imerso em devaneios.
Estou só.
Fecho o livro com um baque e levanto-me
subitamente da cadeira a que estive aprisionado.
Não há como saber se passaram anos ou
meros segundos, mas volto-me ao negro livro, tão imóvel e sereno em sua
plenitude movediça. Parece-me inofensivo.
É com cautela que me aproximo do objeto
e o examino com dedos trêmulos. E é com ainda mais cautela que abro suas
páginas aleatoriamente. Para meu choque, a frase que escrevi há alguns
instantes entra em meu campo de visão.
É com maior choque que observo uma
segunda frase embaixo de minhas palavras:
“Esse livro não pertence a você.”
O dono das palavras hostis prefere não
se revelar.
Por impulso tento folhear, avançar mais
algumas páginas. Escapar da insinuação latente. Outra página em branco e com
ela, um imediato fluxo de alívio.
“Esse livro jamais pertenceu a você.”
Permito que o misterioso livro me
entretenha pelos próximos momentos.
Surpreendo-me ao perceber que não tenho
raiva. A nova voz deveria me provocar assombro – e assim o faz –, mas tal
sensação não é de absoluto desagradável. Um fio de adrenalina se embrenha por
minhas engrenagens e sou tentado a me entregar a sua correnteza.
“Esse
é meu livro.”
Uma crescente onda de inquietante euforia
ameaça me tragar quando observo minhas palavras no papel.
Anseio por uma resposta e pela dose de
adrenalina que se faz presente. Avanço um punhado de páginas, afoito por outra
frase.
Mas não há nada ali. Nenhuma palavra,
Só há o branco, Sempre só existiu o branco.
Não desisto. Viro as páginas com tamanho
ímpeto que o papel ameaça rasgar-se e desfazer-se diante meus olhos impacientes.
Suspiro aliviado ao notar palavras ganhando
vida sobre a superfície branca que aprendi a odiar.
“Você pertence a esse livro.”
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